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What is the point of the revolution if we can’t dance?, Jane Barry and Jelena Dordevic
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:What is the point of the revolution if we can’t dance?, Jane Barry and Jelena Dordevic
Integrated SecurIty: the manual, Jane Barry
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Edição atual desde as 17h57min de 31 de janeiro de 2018

Segurança Holística

Defender direitos humanos é um trabalho recompensador, senão não estaríamos nessa luta! Mas podemos observar alguns padrões estressantes na vida de ativistas de direitos humanos: alto grau de estresse crônico, exposições a trauma e sobrecarga de trabalho, entre outros.

A pergunta é: Como fazer para permanecermos seguros e saudáveis, tanto física quanto emocionalmente, frente a tantos riscos e desafios diários?

Segurança holística não tem nada a ver com a pacificação de nossas almas. Trata-se de problematizar e minimizar os impactos negativos que esses tipos de atividades podem trazer para nossas vidas, nossos grupos e nossas comunidades. São trabalhos difíceis e muitas vezes perigosos, sempre falta tempo e espaços seguros para refletir sobre nossa segurança e bem estar de maneira significativa. Cansaço, esgotamento, depressão, raiva, intensos períodos de crise, seguidos por crises nas relações, problemas com família, quebra de confiança, traições, amarguras e feridas profundas são comuns na vida dos defensores de direitos humanos.

Precisamos aprender como sentir a dor e como falar sobre o que estamos passando ao invés de negar ou procurar conforto nos lugares errados. Temos que aprender a gostar um dos outros, respeitar cada um e, ainda mais importante, como ter prazer fazendo o que fazemos.

Precisamos de espaços nos quais possamos compartilhar desafios e preocupações, situações de grandes tristezas e também de conquistas extraordinárias. Espaços nos quais possamos formar uma comunidade e desenvolver maneiras práticas de criar estratégias em conjunto para poder seguir fazendo o que fazemos. Para aprendermos a ficar seguros,e sãos, além de fazer o trabalho que amamos.

Ativistas de diferentes áreas de atuação têm muito em comum, não importa onde, em qual país ou contexto, não importa se você está nessa a uma semana ou uma vida toda. Compartilhamos experiências de repressão, discriminação, ódio, nosso senso de injustiça, nossa experiência pessoal de diferentes formas de violência, como sobreviventes, como testemunhas ou ambos. Somos movidos por nossa paixão por fazer alguma coisa para mudar essa realidade.

A esfera pública de nossos trabalhos é, no fundo, muito pessoal, e a esfera pessoal é integrada com nossa segurança. É pessoal por causa do nossos grupos de apoio, e das nossas relações. As pessoas que nos apoiam são amigos, família, amantes, enfim, nossa comunidade. Quando nos dão suporte é maravilhoso, e quando nos negam suporte ou nos traem é devastador. É pessoal por causa das ferramentas que usamos – porque o que trazemos para nossos trabalhos é nosso próprio corpo, nossa mente afiada, nosso senso de humor, nossos corações e instintos.

As pessoas que querem nos imobilizar sabem que o trabalho dos defensores de direitos humanos é pessoal. E é por isso que os ataques também são pessoais. Eles atacam deliberadamente nossas famílias, parceiros, amigos, nossa reputação, nossa credibilidade, nos chamam de traidores, espiões, prostitutas, atacam nossos corpos e nossa sanidade mental.

Se é assim, então porque não falamos do pessoal, quando claramente isso é tão importante para nossa segurança, para nossa sobrevivência e resiliência de nosso trabalho?

Provavelmente porque aquilo que é pessoal é privado! E supostamente não devemos falar sobre isso.

É sempre difícil falar sobre segurança e bem estar, falar sobre nós mesmos, nossas esperanças, medos e preocupações e quando questionados podemos responder com confusão e frustração. Podemos falar por horas sobre direitos humanos, mas a situação é diferente ao falarmos sobre nós mesmos, especialmente sobre como nos sentimos em relação ao estresse, nossas emoções e dificuldades do trabalho, sobre o impacto desse trabalho em nossas vidas e em nossa segurança. Mas é hora de fazer do cuidar e bem estar uma prioridade e afastar a ideia de que estresse, exaustão e sua própria segurança são assuntos apenas da esfera privada, sem relação com o ativismo. Como podemos nos manter seguros no meio disso tudo?

Podemos começar a falar sobre sustentabilidade ativista. Colocar o pessoal na mesa, desafiar os tabus. Fazer as perguntas mesmo se ainda não tivermos as respostas. Começamos quebrando o silêncio.

Olhar a sustentabilidade ativista é olhar olhar para nossa própria sustentabilidade. Como sustentamos nossas próprias vidas, conseguimos energia própria e trazemos essa mudança para outro lugar mais? Nós falamos sobre a sustentabilidade dos outros, mas raramente falamos da nossa própria.

Desafios:

Dinheiro: É uma das questões que os ativistas sentem-se mais confortáveis para falar. É o círculo infinito e o estresse de angariar fundos dignamente. Mas a fala quase sempre se limita a como ter o básico para o trabalho. Outras questões como salários decentes, segurança, plano de saúde, pensão e treinamento são vistos quase sempre como extras. É comum o ativismo não pagar o aluguel, não ter rede de segurança caso fiquemos doentes ou garantia de pensão para quando nos aposentarmos. Tentamos fazer dinheiro suficiente para sobreviver e ainda assim fazer o trabalho que amamos como defensores de direitos humanos.

Excesso de trabalho: Boa parte dos ativistas trabalham 24/7 (24h por dia – 7 dias por semana), sem descanso ou pausa. Precisamos falar sobre limites, uma vez que nosso trabalho como defensores entra em todos aos spectos de nossas vidas. Além disso, temos que lidar com os desafios de cuidar de nossas casas, nossas crianças, parentes idosos, contas, etc.

Dor e perda: Raramente falamos publicamente sobre nossas tristezas, como nos afeta quando adoecem ou falecem entes queridos. Também não falamos sobre a tristeza que vem com nossos trabalhos, as histórias, as perdas, as violências que experienciamos todos os dias. Além disso, nós ativistas também vivemos essas perdas na esfera privada e raramente reservamos o tempo e espaço necessário para sentir e compartilhar.

Culpa: Culpa internalizada / auto-negação / auto-flagelação: é sensação de que nunca é suficiente, muitas vezes comparando-se a experiência do outro. “Como eu tenho o direito de sentir algo, quando outros estão sofrendo tanto?”. Culpa externa: julgamos os outros (ou somos julgados) por não fazer o suficiente.

Relacionamentos: Os ativistas formam um grande sistema de apoio, mas essas relações são complicadas e repletas de dinâmicas de poder que relutamos em falar sobre. Por outro lado, uma vez que somos tão importantes uns para os outros, uma traição no meio ativista gera feridas profundas.

Administração do tempo: Centenas de novos e-mails na caixa de entrada, escrever projetos com prazos curtíssimos, aplicativos de mensagem instantânea com notificações que não param de apitar e ainda cuidar da casa, família, alimentação e lazer. Quem nunca teve a sensação de que não ia dar conta?

Prazer: Onde está o prazer em nossas vidas? Onde está a diversão? Qual foi a última vez que sentimos nossos corpos, dançamos até cair, rimos até doer, nos tocamos e tocamos o outro com prazer?

Espiritualidade: E o que fazemos com as grandes questões que surgem diariamente no nosso ativismo? “Porque isso está acontecendo?” “Porque a violência?” “Porque não posso parar isso?” Onde podemos ir para perguntar essas questões, principalmente quando as pessoas e lugares que poderiam nos oferecer essas respostas muitas vezes são aqueles que nos rejeitam e nos desafiam?

Proteção e medo: Como lidamos com o medo, e de que forma ele é conectado com o nosso conceito de segurança e proteção. Ativistas lidam com medo de diversas formas: negando-o, tornando-nos paranoicos, entrando num estado de vigilância permanente, rindo da situação, depreciando a nós mesmos e aos outros por sentir medo, reconhecendo o medo mas também minimizando, comparando a outras pessoas e histórias.

Consequências

Eventualmente tudo isso vai emergir de alguma forma. São experiências que ficam marcadas em nossos corpos e afetam todos os aspectos de nossas vidas, e frequentemente se manifestam como doenças, mágoas, traumas, irritabilidade, raiva, brigas com quem amamos, amigos e família. Isso pode acabae destruindo nossos relacionamentos e como consequência podemos ficar sozinhos e isolados.

Ciclo completo

Nós precisamos ter certeza que estamos reconhecendo o enorme custo emocional, espiritual e físico deste nosso trabalho, além da falta de reconhecimento, a falta de liberdade e o estresse de lidar diariamente com o ódio e a violência.

Precisamos reconhecer como tudo isso influência nossa segurança e nossa capacidade de nos mantermos seguros. Está tudo conectado, todos os aspectos de nossas vidas ativistas afetam a forma como pensamos e vivemos a segurança. Falar sobre segurança é falar sobre nossa saúde, felicidade, bem estar, níveis de estresse, nutrição, se podemos manter nosso trabalho, nossa identidade e quem amamos, como nos sentimos quando levantamos pela manhã e sobretudo o que sentimos sobre nós mesmos – nosso senso de valor e auto respeito.

Se sentimos que não vale a pena aproveitar o tempo para cuidar de nós mesmos, se acreditamos que nossa vida é dispensável, particularmente em comparação com outras, se somos muito ocupados ou estamos muito exaustos para priorizar a segurança, como nos sentimos sobre uma ameaça, tudo isso influencia diretamente nossas tomadas de decisões para se proteger e consequentemente em nossa capacidade de reconhecer e criar estratégias.

Uma vez que reconhecemos quão profundamente todas essas questões estão interligadas com nossa segurança, começamos a explorar estratégias para manter a segurança a partir de uma nova perspectiva. Todos nós temos estratégias privadas que usamos todos os dias, até mesmo por instinto, e frequentemente não as reconhecemos como estratégias reais de segurança. Também por esse motivo essa perspectiva do assunto é tão pouco compartilhada e documentada.

Quando falamos em formas para que defensores de direitos humanos protejam a si mesmos, suas organizações e programas, encontramos uma variedade de exemplos criativos, inteligentes e flexíveis para ameaças de segurança. Veja alguns deles abaixo.

Trabalhando com visibilidade: Muitas vezes nossos trabalhos na defesa do direitos humanos têm situações pontuais que precisam ser escondidas, permanecer em sigilo, até que uma ameça tenha passado. Outras vezes trabalhamos o tempo todo encobertos de alguma maneira. Isso ocorre, por exemplo, em muitos abrigos e centros de acolhidas de mulheres em situação de violência. Em algumas situações podemos optar por responder a uma ameaça publicamente, desafiando o oponente através de sistemas judiciais nacionais ou internacionais, e com isso ampliar as atividades e o perfil público para uma causa.

Blefando: Em alguma situação podemos decidir ficar firmes e contar uma mentira. Um exemplo é um grupo de mulheres num país africano que foi parado por soldados e estavam a ponto de serem violentadas sexualmente, mas disseram que estavam menstruadas e, mostrando almofadas manchadas de sangue, foram liberadas!

Construindo aliados: Muitos grupos formam relacionamentos estratégicos com aliados individuais na mídia, nos ministérios, na força policial, ou com outros grupos locais, nacionais e internacionais para que, quando ameaçados, possam desencadear uma rede de denúncia, suporte e proteção.

Resistência simbólica: Podemos usar simbolismos para nos expressar quando outras formas de expressão são silenciadas. Podemos usar cores específicas e protestar em silêncio, ou então usar música e dança para desarmar a agressão ou violência.

Estratégia espiritual: As formas com as quais podemos proteger nossas saúdes e corações dos desafios de nossos trabalhos podem ser criativas e poderosas. Por exemplo, uma ativista colombiana, ao falar de suas estratégias para lidar com o estresse e insegurança do trabalho, disse: “Eu sempre uso música e dança! Estas são as formas de dizer aos mercadores da morte que a essência da dignidade é a felicidade”

Livre adaptação dos textos:

What is the point of the revolution if we can’t dance?, Jane Barry and Jelena Dordevic
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